Paulo Kapela (1947–2020) permanece como uma das figuras mais singulares e queridas da arte contemporânea angolana — um artista cujo universo desafia qualquer categorização simples. A sua obra, construída ao longo de décadas de resiliência e busca espiritual, funde a cosmologia bantu, simbolismos judaico-cristãos e rastafáris, iconografia popular e a poesia humilde dos objectos do quotidiano. O curador Dominick A. Maia Tanner descreve o universo de Kapela como “uma cartografia mitopoética de Angola — ancestral, enigmática, codificada, luminosa e profundamente humana.” Para Dominick, que conviveu com Kapela durante anos, a prática do artista não era apenas expressiva, mas visionária: “Kapela não fazia arte sobre algo; ele canalizava algo.”
Um Caminho Marcado pelo Movimento e Mistério Nascido em Maquela do Zombo em 1947, Kapela costumava dizer que vinha “do Congo”, referindo-se não à RDC, mas ao antigo Reino do Kongo — um detalhe que frequentemente gerava equívocos sobre a sua identidade. Ao longo da vida, circulou entre Brazzaville e Luanda, absorvendo influências das escolas de pintura de Poto-Poto, da cultura urbana e da contemplação espiritual.

Dominick recorda que a vida de Kapela foi marcada por “movimento, deslocamento e sobrevivência”, mas que possuía uma capacidade extraordinária de transformar essas experiências num vocabulário simbólico totalmente seu. Com o tempo, construiu um sistema de ícones — círculos, grelhas, santos, espelhos, penas, flores — que apareciam, desapareciam e se transformavam ao longo de décadas, formando uma linguagem íntima e ao mesmo tempo universal.
Anos de Vulnabirilidade Apesar de ter exposto no Africa Remix, na Bienal de Veneza e na 1:54 London, Kapela viveu durante quase vinte anos em condições precárias no degradado edifício da UNAP. O seu estúdio tornou-se casa e santuário — um espaço repleto de objectos aos quais atribuía significado. Em 2014, depois de ser levado contra a sua vontade para o Lar de Idosos do Beiral, Kapela perdeu o estúdio, a independência e o ritmo criativo. Dominick recorda este momento como um período de frustração e tristeza para o artista, que desejava continuar perto dos colegas na UNAP. Tudo mudou quando a Fundação Arte e Cultura interveio.

Um Ponto de Viragem: A Fundação Abre-lhe as Portas A Fundação Arte e Cultura ofereceu a Kapela aquilo de que mais precisava:
um estúdio seguro, materiais, rotina diária, companhia e — acima de tudo — dignidade. Com o apoio da equipa da Fundação e de actores culturais que acreditavam profundamente no seu legado, Kapela voltou a criar com alegria e produtividade. Uma Relação Holística: O Apoio 360 Graus da Fundação Mas o impacto da Fundação foi muito além do apoio logístico. A chegada de Kapela tornou-se um exemplo emblemático da filosofia 360 graus que orienta o trabalho da instituição com artistas. Como destaca Naama Margalit, Directora Executiva da Fundação Arte e Cultura, a relação com os artistas é holística e profundamente humana.
Naquele período, vários membros da equipa criaram laços de proximidade com Kapela — entre eles Xavier Narciso, hoje Director Geral Adjunto, que fazia parte da equipa da Fundação e desenvolveu uma relação significativa com o artista. A presença, o cuidado e a atenção diária da equipa ajudaram Kapela a recuperar estabilidade, confiança e ritmo criativo, reflectindo o compromisso duradouro da Fundação em apoiar o artista para além do estúdio. Durante os primeiros meses de 2015, Kapela criou e restaurou, dentro da Fundação, um conjunto notável de obras — algumas datadas de 1989, outras inteiramente novas — que viriam a constituir o núcleo de uma exposição histórica. A Exposição que o Trouxe de Volta Em Março de 2015, a Galeria Tamar Golan (Fundação Arte e Cultura) apresentou a primeira exposição individual de Kapela em Angola, exibindo 43 obras produzidas ou recuperadas entre 1989 e 2015. Dominick explica que a sua abordagem curatorial foi de escuta profunda:
“A minha prioridade foi entrar no mundo dele nos seus próprios termos. A exposição foi pensada para redimir a sua alma e permitir ao público atravessar a arquitectura da sua mente — progressiva, íntima, simbólica.”

A mostra marcou a renovação da sua visibilidade em Angola e levou ao seu regresso triunfal ao circuito internacional. Na 1:54 Contemporary African Art Fair, em Londres, no mesmo ano, o coleccionador Jean Pigozzi entrou na feira, levantou os óculos e disse simplesmente: “Gosto disto!” Comprou 14 obras — a instalação de Kapela esgotou. Esse momento confirmou o que muitos já sabiam: Kapela era um gigante. Um Guia, um Pai, um Revolucionário Silencioso No cenário artístico angolano, a influência de Kapela foi profunda. Dominick descreve-o como “um revolucionário silencioso” — humilde, gentil, mas transformador. Kapela ofereceu à arte angolana algo raro:uma linguagem simbólica auto-criada, livre de molduras ocidentais e das expectativas do mercado. Os artistas mais jovens viam nele a prova de que a criatividade podia emergir da metafísica interior, e não da validação externa. Os mais velhos admiravam a disciplina e a pureza da sua entrega. Dominick resume: “O impacto dele nem sempre era verbal — era energético. Ele fazia as pessoas repensarem porque criam.” Por isso, acredita que Kapela é “um dos pais da arte contemporânea angolana.” O Poder Emocional da Sua Obra O público — tanto local como internacional — reage à obra de Kapela primeiro com emoção, depois com intelecto. Os angolanos reconhecem instintivamente o ritmo, a espiritualidade codificada, a densidade familiar das suas composições. Os observadores internacionais maravilham-se com a autonomia do seu universo visual, que escapa às categorias pré-definidas de “arte africana”. Dominick afirma que quem se depara com a sua obra sente que entrou “num universo, não num estilo.” Legado e Memória Kapela faleceu em Novembro de 2020 devido a complicações da Covid-19. Dominick, que passou quase todos os dias dos últimos cinco anos ao lado do artista, recorda um momento íntimo no seu estúdio no ELA: rodeado de obras em progresso, Kapela sussurrou suavemente a palavra “místico.” Essa palavra, diz Dominick, capturava a sua essência: “enormemente interessante, super entusiasmante e eternamente pertinente.” As suas obras permanecem como arquivos da Angola pós-colonial, repositórios de memória, fé, resistência e imaginação. O seu legado renasce sempre que alguém se encontra diante de uma das suas obras e sente a ponte que ele construiu entre o visível e o invisível. Um Legado Preservado Um dos capítulos mais significativos da trajectória de Kapela é o papel desempenhado pela Fundação Arte e Cultura, que garantiu que ele pudesse continuar a criar com dignidade, alegria e propósito nos últimos anos da sua vida. Sem essa intervenção, a exposição de 2015 — e a sua retomada de visibilidade internacional — nunca teria acontecido. A arte de Kapela vive não apenas em colecções, museus e arquivos, mas na memória da comunidade que o protegeu, apoiou e ajudou a brilhar quando mais precisava.
O seu universo permanece vivo.
A sua mística perdura.
Kapela vive — em Angola e muito além.
Com contribuições de Dominick A. Maia Tanner, curador, produtor, galerista, gestor de residências e colaborador de longa data de Kapela.